Artigos

A Luz sobre o eixo
Por Antônio Siúves

O autor de “Moral das Horas e Outros Poemas”, obra lançada pela Manduruvá Edições Especiais, pequena casa editorial fundada em Belo Horizonte, Minas Gerais, põe-se, um tanto tardiamente, como outra voz em meio à cacofonia do que se tenta nomear poesia brasileira contemporânea.
Não há uma corrente hegemônica, uma estética definidora ou uma força resultante na difusa, diversa e multifacetada poesia que se escreve hoje no país.
Em geral, como marco grosseiramente fincado para se lançar o debate literário, diz-se que há duas correntes subjacentes na herança que os poetas em atividade receberam de seus precursores: uma lírica e subjetiva, legada por Mario de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; outra formalista e construtivista, transmitida soberanamente pela poesia concreta teorizada pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari.
Penso que seria um esforço vão e estéril enquadrar os poetas brasileiros atuais em uma ou outra dessas vertentes. Mas é preciso saber:
1 – Quando poetas contemporâneos são citados em rodas literárias, cita-se recorrentemente uma meia dúzia de nomes. Não vou nomeá-la para não ser deselegante, nem analisar a qualidade da produção, mas essa meia dúzia corresponde precisamente ao círculo promovido pelas editoras dominantes com vínculos econômicos e de amizade com jornais e revistas publicados no famigerado “Eixo Rio-São Paulo”.
2 – Tais jornais e revistas do “Eixo Rio-São Paulo” e seu campo de influência IGNORAM a literatura produzida além das divisas dos dois Estados, exceto quando algum escritor tem suprema sorte, a grande arte de ver-se publicado pelas gigantes desse mercado.
3 – Seja como for, estes mesmos jornais e revistas IGNORAM a poesia. A coisa piorou muito na última década, diga-se, diante da grande crise enfrentada pela imprensa. O espaço das editorias de cultura e cadernos de livros foram, sem exceção, invadidos e dominados pelos especialistas em celebridades, moda, comida e vinho.
Assim, o autor desta apresentação, repita-se, é voz singular na cacofonia brasiliana, entre centenas, talvez milhares de vozes poéticas que padecem como almas penadas no Nordeste, no Sul e no Centro-Oeste do país; autores obrigados a recorrer à autoedição, considerando que, com uma ou outra exceção, que atestam a regra, não há editoras nessas regiões com alcance nacional.
4 – Este autor tem a representá-lo a obra que acaba de lançar e que aqui apresenta-se ao senhores, tão somente seus possíveis méritos e os méritos reais da Manduruvá Edições Especiais, que despertou um livro que dormia, deu-lhe forma e o trouxe à luz.

Blog: http://antoniosiuves.wordpress.com

Artigo sobre Roberto Mendonça

Menino Passarinho
Por Clarice Fonseca (*)

Esperar com paciência a maturidade e o consequente remate das convicções para apresentar-se no momento certo. A estratégia posta em prática pelo escritor belo-horizontino Roberto Mendonça é assim anunciada por ele em entrevistas publicadas em 2004 nos principais jornais mineiros, a propósito do livro de estreia (“Crônicas do Fim do Tempo”, em bem-sucedida edição capitaneada por Álvaro Gentil, da Manuscritos, com projeto gráfico de Marcelo Xavier, ilustrações de Mário Vale e fotografia de Cristiano Machado). E prenuncia o sumiço logo após o lançamento. Quase dez anos depois, os leitores deste livro sabem muito bem quem ele é; desde então, mantêm interesse pelo autor e pelo homem; aguardam mais uma publicação, nutrindo o misto de curiosidade e admiração.
Agora, Roberto Mendonça se reapresenta com a rara sensibilidade e o peculiar domínio da linguagem, abrindo, definitivamente, as gavetas do talento. E não é só o autor maduro, por enquanto inacessível à maioria, que vale a pena anunciar: trata-se de incomum intelectual que se recusa a viver no ambiente urbano, preferindo a mata de cerrado e o isolamento que não serve de amálgama ao marketing dos tempos de best seller.
O registro é especialmente importante porque, após a apresentação de “Urucuia”, ele acaba de concluir e prepara o lançamento do livro de poemas “João de Barros e Outras Pessoas” (assinando também o projeto visual que acolhe a fotografia do premiado Marcelo Prates). Além disso, finalizou em estúdio o primeiro CD, “Água de Mina”, com nove composições, também inéditas. São projetos que precedem o primeiro romance, em fase de conclusão, e que devem chegar ao público até o final de 2015, todos pela Manduruvá Edições Especiais.
As portas, finalmente, vão se abrindo. E em todos os casos serão inevitáveis as comparações e irrefutável o respeito dos próprios colegas de ofício: para eles, a literatura de Roberto Mendonça é do nível da de Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade. É mesmo. Roberto Drummond (falecido em 2006) o registra no agradecimento impresso em “Inês é Morta” (editora Objetiva) e o considera “o pé-de-coelho” da crônica. Antônio Barreto, um dos papa-prêmios da literatura mineira, o tem como um “mestre das crônicas”.
Vale falar mais um pouco sobre o que vem por aí. Escritor, músico, artista gráfico, professor universitário e jornalista, Roberto Mendonça oferece espetáculo à parte em “João de Barros e Outras Pessoas”. Concebida e idealizada pelo próprio Roberto, a edição se oferece sob tons de azul em degradê que nunca se misturam com o texto e as fotografias feitas pelo premiado Marcelo Prates. O idealizador estabelece o céu em que imprime doze poemas, cada qual dedicado a um pássaro. A harmonia entre poesia e imagem é ressaltada pelo projeto gráfico de Roberto Mendonça, que assim retoma as origens como desenhista, artista plástico e designer gráfico para oferecer um ambiente de perfeito equilíbrio entre as imagens e o próprio texto. Pássaros e homens dividem o mesmo céu, são os mesmos, apesar de tantas diferenças.
“João de Barros e Outras Pessoas” é didático, ecológico, artístico e, primordialmente, poético. Lúdicos e ao mesmo tempo cortantes, os poemas apresentam cada pássaro com delicadeza, ressaltando características marcantes em analogia com os humanos, suas virtudes e os descaminhos. Assim, o melhor lugar para um canário chapinha não é o cano de descarga do automóvel, tampouco o semáforo da avenida é abrigo adequado aos bem-te-vis. As imagens de Marcelo Prates têm relação direta com os versos. O encantamento é inevitável!
Com maestria, o autor guia o leitor ao apresentar cada indivíduo, aproximando pássaros e homens, dando asas aos homens e concedendo uma dimensão humana aos pássaros. E chega ao requinte de traduzir em versos o canto dos passarinhos: o solfejo atonal do sabiá ou o sibilar do sanhaço –  nesse caso, sem utilizar nem sequer um único “r”, porque o sanhaço não trina; ao recitar, o locutor, obrigatoriamente, vai imitar o canto do passarinho:

Seu Assunção? Conheço
seu sangue fidalgo,
seu senso de anil,
seu silvo sossegado,
seu assanhamento,
seu ócio sob o sol.
Seu Assunção, que se diz feliz,
sem passas não passa,
sonha com uvas; excita-se no mamoeiro,
suga suco de pitanga,
sopita em mamão e manga,
sai e assobia assim e assado.
Seu Assunção
sabe de seios
saltando suaves nos olhos
silentes, de maçã.
Assim, Seu Assunção
silfo se sente.
Se bem que, mesmo omitindo,
Seu Assunção tem
sangue de Silva:
seu pai é que assina;
seu Silva é saído da Silga,
soltada de quintal.
Sim, é isso:
Seu Assunção é Silva,
Seu Silva é Assunção;
Sendo Assunção, silva;
santo, sensível;
sucinto, sutil, celestial”
(Trecho do poema “Silva Assunção”, inspirado nos sanhaços, em “João de Barros e Outras Pessoas”)

A crítica social, explícita nos textos de Roberto Mendonça, também marca presença em “João de Barros e Outras Pessoas”:

“Paulinha trepa
com Paulo Rola.
Esfrega-se toda,
a tonta no Rola,
o Rola na tonta,
sem anticoncepcional.
Resultado:
filharada
arrulhando na rua,
arrolhada,
desempregada,
ponteada,
rebuçada,
arreliada,
infestada
dessa praga
de piolho.
E Paulinha dando,
apaixonada,
no telhado,
no xaxim de samambaia,
no caramanchão,
na casca do carvalho,
na casa do caralho,
na greta do barracão.
E dá-lhe rabo torto,
bicho mole, o pau
que apronta, a prole
desenganada,
sem despensa,
salvando o troco
da indiferença,
bicando a janta
em papel-jornal.
E agora,
Pombinha?
Essa ninhada,
essa comida na lata,
essa amargura,
esse nicho no lixo,
essa porra de porre,
esse grão miserável,
esse cada dia,
da filharada,
sem escola,
sem esmola,
sem futuro,
sem nada…”

(Trecho de “Paulinha’, poema inspirado nas rolinhas em “João de Barros e Outras Pessoas’)

Apesar de ser grande e merecer correr mundo, “João de Barros e Outras Pessoas” está longe de esgotar o rol de virtudes do autor. Para tanto, é necessário retornar a “Crônicas do Fim do Tempo”. E que crônicas! A poesia está sempre presente, embutida em textos que têm por obsessão o tempo presente e a palavra exata.
Esses textos, de caráter autobiográfico, servem como instrumento memorialístico sobre Belo Horizonte, sendo utilizados, desde a edição da Manuscritos, nos campi da PUC e UFMG, e apresentam um cronista ao qual nada escapa às retinas. A delicadeza e, ao mesmo tempo, a sinceridade afiada são do tipo que chega a causar desconforto no leitor. Roberto Mendonça consegue mesclar prosa e poesia em rimas de fina ironia. A mensagem é simples e profunda, o tempo é sempre o presente, o presente do indicativo, denotando a obstinada intenção atemporal e universal do escritor.
Em “Crônicas do Fim do tempo” há um banquete de idéias claras e bem fundamentadas por quem refaz o trajeto do bonde e convida o leitor a molhar os pés em riachos de águas cristalinas, que em um passado não muito distante riscam a cidade. Nesta Belo Horizonte com ares de metrópole, o autor volta ao passado, apresenta figuras fascinantes, e consegue aproximar-se de tal forma do leitor que é impossível não se identificar com este ou aquele personagem. É inevitável que leitor e autor se tornem cúmplices, tamanha a honestidade, a emoção genuína, a angústia real.
Outro aspecto marcante de “Crônicas do Fim do Tempo”, também facilmente perceptível em “João de Barros e Outras Pessoas”, é a crítica feroz ao progresso que se-pulta os bons hábitos, valores. É o fim ao qual se refere o título, mas é também o que finda por consequência da insensibilidade.
A obra é impregnada de mensagens que induzem o leitor a reflexões. Da crônica “Vila dos Marmiteiros” emerge a interseção exata de tempo passado e presente. O texto constitui relato histórico das transformações sócio-políticas em Belo Horizonte:

“Vejo aquela lua na ferrovia quando vou da Gameleira ao Calafate, sempre com a voz de mamãe na cabeça: Menino, não volta tarde, não passa pela Vila dos Marmiteiros.
Inda hoje, anos depois, eu parado ao volante, grisalho, no sinal da Via Expressa rumo à Universidade Católica, ela adverte: Cuidado!
Caminhões carregados e dondocas nos seus carrões agora deslizam sobre o fantasma da Vila, desapropriada em nome do progresso e por culpa das enchentes. Não há ruína de casebre que testemunhe o lugar, e nem a via é expressa mais, porque automóveis e caminhões param nos congestionamentos.
Imagino onde estão os herdeiros da gente vilã, nos rincões que hoje são bairros humildes de Belo Horizonte.
Os que amedrontam minha mãe vêm de roças onde se come angu com torresmo dum fogão de lenha. São também os que bebem água fresca e fisgam bons peixes do ribeirão Arrudas; os que, na calada da noite, quando é proibida aos meninos a aventura das tri-lhas, juntam trouxas, pacotes, esperanças, marmitas… e se vão, crendo na sorte da cidade grande”.
(Trechos de “Vila dos Marmiteiros”, em “Crônicas do Fim do Tempo”)

Os textos, sejam em prosa ou versos, são sempre declarações de amor e respeito à natureza, e não faltam paixão e entusiasmo cravejados com doses de melancolia. O autor fala de pássaros com a autoridade de quem desde muito cedo aprende a reconhecer o canto, as cores, os gestos. Temas como a solidão e a morte mesclam-se como colcha de retalhos criando matizes inesperados. A alegria não é explícita, tampouco se faz inexpressiva:

“É junho e faz frio. Estou na casa de Teodoro, festejando mais um almoço de domingo, sob a bênção do velho pedreiro e sanfoneiro, o marido da Glória.
Agora, quando ele experimenta os últimos dias e os olhos azuis se colorem do cinza do fim do tempo, hora é de apreender seus gestos como ensinamentos perenes.
Depois dum brinde com a pinga de barrilete, ele caminha lento até o canto do quartinho das lembranças cinquentenárias. Ofegante, reabre as gavetas da juventude, do tempo das soleiras cobertas de pedrinhas de gelo, de fazer frio em junho e chover em dezembro. E volta com a sanfona, a pé-de-bode que o acompanha há mais de meio século.
Teodoro me diz que não repare o presente, a caixa ofuscada, sem a cor da lua na estradinha de terra: é o misto de papelão sanfonado entre a madeira, donde brotam teclas pequenas e redondas.
Ora, ora, meu velho… Como não reparar? Como desprezar a dimensão da oferenda?
Decerto não sou do tempo de forrós celebrando a colheita abundante; de andar légua e meia a pé, para lá dos grotões do mundo. E imagino o que signifique calejar as mãos na enxada e na massa de cimento, arrancando do chão bruto a certeza de dias melhores. Contudo, sei muito bem que o valor do presente não se mede pelo requinte.
Para o amigo, a sanfona é forma de compreender meu gosto pela música e dar mote à saudade.
Compreendo, e tento segurar o choro, mas é difícil não se emocionar diante de alguém que convide a compartilhar da festança da própria existência, guardada em forma de xote a sete chaves, há tanto tempo, nos veios mais inebriantes do coração.
Por isso — porque nos compreendemos –, ficamos alguns minutos em silêncio, enquanto as pessoas entram e saem da sala, brincando, tentando espantar tanta emoção.
De súbito, ele resolve tocar qualquer coisa. Pondero que é desaconselhável, porque o ar anda pouco nos pulmões; mas, Teodoro se senta no sofá, prende as alças da sanfona e dá seu show, como nos velhos tempos, resgatando algo da poesia de Assis Valente, do romantismo de Vicente Celestino e das festanças caipiras dos melhores ranchos.
Ele se exibe com força e graça de menino estreante em festas juninas, buscando qualquer fama, um chamego que seja, até mesmo aquela dose de cachaça que esquenta o peito e rebrilha nas retinas.
(Trecho de “Melodia Imortal”, em “Crônicas do Fim do Tempo”)

No prefácio de “Crônicas do Fim do Tempo”, o escritor e jornalista Antônio Siúves observa que o livro “persegue certa pureza, o registro genuíno da emoção reveladora, solidamente, ontologicamente, incrustada na memória”.  Para Siúves, “o cronicar de Roberto, ainda que reverencie o pendor de um Braga (e são nítidos os ecos do Bruxo Eterno), traz em si o frescor da originalidade delicada e cortante. Esta interface, por sinal, o livro, é-lhe destino justo, pela nobreza da tradição. Nas folhas, não encontra mesmo par a mediocridade desapaixonada que hoje domina os seus colegas de ofício, que bem merecem sua fugacidade”
A comparação com o “bruxo” Machado de Assis é providencial. Em “Relíquias de Casa Velha”, Machado faz esta advertência ao leitor: “Uma casa tem muita vez as suas relíquias, lembranças de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. Supõe que o dono pense em as arejar e expor para teu e meu desenfado. Nem todas serão interessantes, não raras serão aborrecidas, mas, se o dono tiver cuidado, pode extrair uma dúzia delas que mereçam sair cá fora”.
Do autor de “Crônicas do Fim do Tempo”, de acordo com a sábia advertência de Machado de Assis, com toda certeza o leitor pode extrair dúzias de ideias que mereçam sair cá fora. Roberto Mendonça abre os porões da memória sem pudor, revela ao leitor seus desejos mais íntimos, não esconde suas fraquezas, pelo contrário, as assume, explícito. Mostra-se ao leitor como é. E, como escreve Siúves no prefácio, “com que elegância o faz”.
Mesmo frequentemente revisitando o passado, o autor não cultua o saudosismo. A mensagem é precisa, equilibrada, prioriza as memórias afetivas sem se ater às descrições exatas, tão comuns nos memorialistas como Pedro Nava. É nos detalhes que estabelece a ponte entre tempos distintos:

“No meio da cidade grande, sem centavo pra pagar o Prado-Turfa, resolvo recorrer a Tia Elza. É que estou sempre lá, me sinto em casa, nem me importo de pedir. Assim, atravesso a Paraná, subo a escadaria, e vejo seu rosto, sorridente como sempre, naquela janelinha da porta.
Depois de garantir meu cruzeiro da passagem, ela logo põe a mesa do café, antes de exibir seus desenhos de traço viçoso, quadros a óleo secante, realces de toalhas.
Na cozinha longa e antiga, bebo Mate-Couro e ouço que passo da hora de cortar a juba: cabelo grande é para menino feio, que tem medo de mostrar o rosto. (…)
Na Paraná, a velha árvore ora dá passagem a magotes de camelôs, pivetes e operários apressados, atrás do leite dos gatinhos e do real da passagem. No lugar do esverdeado Prado-Turfa, ônibus vermelhos e amarelos se oferecem, aos montes, na esquina com Carijós.(…). Nas noites derradeiras, Tia Elza dorme abraçada com a boneca, olhando a luz afrouxelada da lâmpada, à espera do embarque ao andar de cima, com a passagem mais que garantida.
(Trechos de “O Cruzeiro da Passagem, em “Crônicas do Fim do Tempo”

O escritor Carlos Herculano Lopes afirma em artigo publicado no Jornal O Estado de Minas: “A crônica é um gênero difícil, espécie de meio termo entre o texto jornalístico e o conto. Tudo pode dar crônica, desde que tenhamos olhos para captar o momento e coração para guardá-lo. Roberto Mendonça, jornalista experimentado nos embates da profissão e da vida, sabe disso tudo, e muito mais. Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar. Essa conhecida frase do poeta espanhol Antônio Machado, já usada um sem-número de vezes, pode muito bem dar a dimensão do que é ‘Crônicas do Fim do Tempo’, o seu livro de estreia, no qual Roberto Mendonça, como um incansável andarilho, vai registrando o que vê, o que ouve, o que sente. Pessoas, situações. Lugares. Às vezes, com discreto humor (bem típico dos mineiros); outras, com uma indisfarçável melancolia”.
O saudoso poeta, cronista e jornalista Alécio Cunha (falecido em 2009), em artigo publicado no jornal Hoje em Dia (Belo Horizonte, 2004), consegue de forma delicada e emocionante demonstrar as angústias do homem e a dedicação do escritor à literatura. O texto “A letra do homem” homenageia o processo criativo de Roberto Mendonça: “O homem que sonha sabe que o objeto- livro, agora nas mãos de quem lê, não mais lhe pertence. As histórias escritas ao longo de tantos anos – quantas idas e vindas custaram-lhe noites de sono, marcadas pela vigília da letra, a energia de preencher, inicialmente, o papel em branco, depois a alvura luminosa da tela em transe digital”
Em entrevista ao jornalista Júlio Assis (jornal O Tempo, Belo Horizonte, 2004), Roberto Mendonça diz que, apesar de ter “só 45 anos”, ainda pôde ver o Rio Arrudas limpo, no tempo em que ali se pescavam cascudos.  E ironiza. “O que nos ofereceram de melhor? A Via Expressa?”.  Ele não esconde o desgosto com o progresso frio e desordenado da metrópole com pouco mais de um século de existência, mas que mata um rio piscoso e estabelece o mundo de cimento e poluição que não se verifica em cidades milenares da Europa. Assim como Drummond põe Itabira no quadro da parede, Roberto Mendonça registra Belo Horizonte como melancólica utopia.
O homem por trás do texto é discreto, mantém-se distante dos holofotes. Vê-se que não gosta de dar entrevistas. Em 2004, abandona promissora carreira de professor de Redação em Jornalismo na PUC, após ter sido paraninfo da primeira turma do Oeste de Minas, abrindo caminho para jovens que hoje brilham nas telas e nas páginas pelo país. Na época, ao participar como palestrante da primeira edição da Feira de Livros de Belo Horizonte, se justifica afirmando que “prefere ser aluno que ser professor”. A partir daí, sai de cena, afasta-se por meses do trabalho como jornalista para tratar-se de profunda depressão, e escolhe, definitivamente, viver com a gente simples. Hoje escreve e edita livros em recanto isolado, cercado pelo que resta do cerrado mineiro. Não pertence mais a este mundo de asfalto e concreto. Há cinco anos, o escritor vive em seu sítio em Jaboticatubas, nas proximidades do Rio das Velhas e do Parque Nacional da Serra do Cipó , em Minas Gerais.  Às vezes recebe os irmãos, os amigos e Victor, o único filho, para quem assina algumas das mais belas crônicas deste livro.
Roberto não parece o intelectual que é, apaixonado por Nietzsche e Schopenhauer. Os vizinhos não sabem disso. Conhecem, sim, um sujeito de chinelos, bermuda, cabelos longos e desgrenhados, um ser de outro planeta, espécie de ermitão do cerrado. É visto cavando a terra, munido de pá e enxada. Os vizinhos dizem que é preciso contratar para o serviço pesado, capina não é para gente da cidade. Não sabem que, no fundo, o artista nunca pertenceu de fato à cidade.  Vive no mato, cevando passarinhos, ao som de Bach, Tom Jobim e Deep Purple, iluminado pela arte que motiva e dá sentido à vida.
Ele mesmo projetou a casa em que vive, em perfeita integração com a natureza, com direito a faixa de mata original sob seus cuidados e do irmão Rodrigo, com quem pretende transformar hectares em um parque com espécies típicas do cerrado.
A preocupação com a fauna e flora da região acompanha o autor desde a juventude, quando, imbuído do espírito aventureiro, embrenha-se pelas montanhas de Minas em direção à (então) virgem Serra do Cabral, ao rio Curumatai ou à pequena Andrequicé do velho Manuelzão, com quem divide a prosa e boas doses de cachaça. São de Mendonça as principais reportagens publicadas a respeito de Manuelzão, o vaqueiro imortalizado na obra de Guimarães Rosa, e das andanças de Rosa pelos sertões. De acordo com o escritor Manoel Higino do Santos (jornal Hoje em Dia, 2007), o trabalho “de Roberto Mendonça é dos que se deve guardar e publicar em tomo como o de Magalhães Júnior. Retrata o celebrado autor (Rosa) e a terra em que nasceu, transformando-a em fulcro de uma produção literária imperecível”.
Em uma de suas crônicas, Roberto Mendonça diz que “só não se vende aquilo que se ama”. O desamor pela natureza é fruto da ignorância e filho do egoísmo que impera e consome os homens que brigam pelo asfalto novo, pelo carro do ano, pelo cobiçado duplex. O escritor vai longe de tudo isso, opta por viver afastado da selva de pedra.
Os que têm o prazer da sua companhia afirmam que ele ainda mantém boa dose do que poderia chamar-se de ingenuidade infantil, certa pureza, que somente é possível encontrar naqueles que rompem com os conceitos de poder, fama e sucesso. Para ele, “se sucesso fosse virtude, Hitler seria um dos homens mais virtuosos de todos os tempos por ter convencido a Alemanha inteira, o mundo inteiro, a aceitar sua guerra”.
Agora, com as gavetas devidamente abertas, resta o prazer de esperar por mais exemplares de safra privilegiada. Depois de “Crônicas do Fim do tempo’, é vez de “Urucuia”, livro que convida às mesas de bar, às mulheres mais perfumadas da noite, ao burburinho da cidade ao entardecer, mas transporta o ambiente urbano até o mundo particular no cerrado, como um convite à comparação.
São cenas que passariam ao largo da maioria, não fosse o olhar incomum, o espírito crítico e provocador, a paixão pela gente estampada em cada parágrafo.
No prefácio de “Urucuia”, o escritor Luís Giffoni observa que alguns dos seus colegas de ofício são especiais: “Laçam no texto a simplicidade – aquele detalhe tão comum que nos passa despercebido, aquele átimo anônimo, aquele canto de pássaro que se perdeu no sítio, aquela lembrança do amigo que se foi, aquele cotidiano sem sobressalto – e a transformam, com sua arte, em interesse de todos, em permanência, em literatura do mais alto nível (…).
Autor privilegiado, Roberto Mendonça enfeitiça-nos com seu texto. Leva-nos a descobrir a grandeza do singelo”. (Trecho da apresentação do livro “Urucuia”)
Mais uma vez, o tempo verbal é, insistentemente, o presente do indicativo, explicitando a preocupação formal com o movimento e o caráter universal, atemporal, da obra. Em “Urucuia”, além de desafiar certas regras pronominais, a mensagem adquire formidável mistura de lirismo com robustez crítica, o que vem a consolidar o estilo inconfundível do autor:

“Incrível que, há segundos, veja-me no bar repleto. A gente se esbarrando, sentindo o cheiro de tempero e fumaça misturado aos perfumes; de suor e álcool imersos na ladainha ou às gargalhadas no caldeirão inebriante do veranico. E acontece que ainda rebrilham os olhos dela nos meus, sem um dó. Olhos penetrantes como faca afiada de reluzente lâmina, mas faca que não fere: simplesmente, impõe-se em fascínio.”
(Trecho de “Sexta da paixão, sábado de aleluias”, em “Urucuia”)

“Abandono o apartamento com vista para o Centro e restos da Serra. Sigo na contramão da balbúrdia urbana, carregando discos, livros e roupas, até o refúgio com quintal para lá da cidade. Inusitado é ora eu transportar um porco de setenta quilos no porta-malas. Um porco com seu focinho de porco, suas orelhas de porco, seus pés de porco, os quatro enormes pernis de porco, as vísceras de porco, o rabo de porco, mais isso e aquilo de porco. Rumo ao desafio de destrinçar o bicho é que dirijo, ao lado de meu pai; atrás, entre a tampa e o estepe, descansa o corpo defunto, desprovido de seu espírito de porco”.
(Trechos de “Espírito de Porco”, no livro “Urucuia”)
Na crônica “Desenhos”, em “Crônicas do Fim do Tempo”, o escritor Roberto Mendonça registra: “Não sei se desenho bem, se toco bem, se escrevo bem. Sei que minha vida é desenhar, tocar, escrever”.
Para ele, avaliá-lo cabe aos leitores. Aos leitores se destina o prazer desta avaliação.
(*)
Clarice Fonseca é artista plástica, fotógrafa, restauradora, especializada em conservação de documentos raros. É produtora executiva da Manduruvá Edições Especiais.
Foi produtora do projeto Mosaico Gerais, onde também coordenou a produção artesanal do grupo formado pelas mulheres da associação Quilombola do Mato do Tição, no município de Jaboticatubas (MG), em 2007 e 2008. Esse trabalho deu origem ao projeto “Colcha de Retalhos”, levado a outras comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Clarice Fonseca idealizou o projeto “Cartas para BH”, selecionado para integrar a programação do segundo “Noturno nos Museus de Belo Horizonte”, e coordenou o projeto Arte e Movimento, que consiste na reunião de uma equipe multidisciplinar (psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, professores de canto e artistas plásticos) com o objetivo de realizar oficinas de conscientização e expressão corporal para grupos de jovens e adultos.
É a autora do livro “ELAS”,  no “prelo” (Manduruvá Edições Especiais ).