Crônicas do fim do tempo

Cronicas do fim do tempo Roberto Mendonça

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Prólogo

Guardo algumas peças que, supondo salvar da fogueira do passado, acabo transformando em libelos do presente .
Na página da velha edição ilustrada, o sujeito de terno e chapéu posa diante da exuberante queda d’água sobre a legenda em que se lê: O biólogo francês, diante das Cataratas do Rio Arrudas, em Minas Gerais.
No fogaréu atroz do progresso, que faz do rio o vazio, e do dinheiro o timoneiro, presumo que da corredeira nem reste a fumaça.
Por isso, devo salvar outro impresso das labaredas, o que reconta no cuchê com fartura de fotos, algo de Belo Horizonte, sua gente, suas paisagens. Numa das imagens, aérea, apreendo a Rua Platina de 1958: nenhum automóvel, uma charrete, o centro comercial incipiente ladeando a Igreja de São José, o quartel da cavalaria.
Num canto de página, eis o preto-e-branco colorido de cinza, no pomar de vovô Juca – sítio apinhado de jabuticabeiras, mangueiras, bananeiras, até um poço, criadouro de rãs, no coração da cidade que ganha asas de metrópole.
Meu fosfato vai-se, queimando, e a sorte é ter páginas assim, com dedicatórias de autores idos, ensinamentos inebriantes e imagens contestes.
Hoje é dia de lustrar meus discos de ritmos ofuscados, rever os retratos amarelecidos, recados de botecos, as cartas de namoradas, aqueles pedaços do tempo em guardanapos, canetas, caixas, monóculos, recortes de jornais, documentos, convites de formatura, casamento, nascimento, santinhos de velórios. É que, a despeito dos obstinados pela supressão dos fatos, nesses pertences compreendo episódios como a barbárie nazista, por mais abjeto que soe reportar-se aos campos de extermínio.
Imagino que o mesmo fascínio pelo memoriável incendeie o premonitório de Ray Bradbury, em Farenheit 451, edição de cuja beleza François Truffaut consegue extrair lirismo suficiente à bela versão cinematográfica. O mestre da ficção científico-romântica escreve sobre o futuro das casas à prova de fogo – quando os bombeiros perdem a função primordial e passam a queimar livros. Proibidos de ler, os personagens se recolhem à clandestinidade para decorar, cada um, um livro que escolham, e pelo nome dessa obra são chamados até o epílogo, não antes de repassar frase por frase ao substituto, para que a história não morra carbonizada.
Numa das cenas cruciais, a velhinha prefere ser queimada com sua biblioteca, o que cumpre sem receio.
É possível que experimentemos esse horror absoluto, porque agora vamos nós sem o rumo dos apaixonados, guiados pelo dinheiro, mergulhados nas trevas que podem desaguar no fim ou na renascença.
Minha arte me salva da agonia do testemunho, e não pretendo imputar essa má impressão à velhice, que é a desculpa que se dá aos que separam os prós e contras do progresso material que serve a poucos. O mundo segue miserável como no tempo de Bertrand Russel, que imprime na autobiografia toda a angústia de quem não pode fazer nada para livrar a gente da irrisão da vivência.
E muito ainda há de ser dito sobre nós, mas, enfim, eis o resumo: os discos, os livros, os filmes. Isso é mais que acetato e papel: somos – reeditados, reimpressos, gravados, levados pela premonição da reminiscência.
Ao final, a memória acaba nos tomando mais que os pertences: guia-nos pelos caminhos ardidos da volta, até que sejamos jovens, meninos, embriões, células. Até que sejamos nada, fogos-fátuos, e soçobrem cinzas.

(*) Texto inaugural do livro “Crônicas do Fim do Tempo”